segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O homem sem rosto

Ele era uma daquelas pessoas que costumam chamar de “cidadão modelo”, “pai de família”, “empregado do mês”, etc. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Férias com a família por todo o país, exterior quando juntavam dinheiro. Família grande, reunida. Pouca bebida, charutos cubanos, só. Comunhão no fim de semana, roupas bonitas. Amigos em casa, churrasco. Jornal do horário nobre, não queria parecer ignorante no trabalho. Bom trabalho, aliás. Chefes satisfeitos, subordinados admirados. Nem muito conservador a ponto de ser chamado de reacionário. Nem muito liberal a ponto de ser chamado de revolucionário. Era assim mesmo: andava bem em cima da linha, nem um passo lá, nem um passo cá.

Mas aconteceu de um dia, enquanto ele dormia e sonhava os mesmos sonhos de sempre, entrarem na sua casa e levarem embora o seu rosto. Quando ele acordou na manhã seguinte, olhou-se no espelho do banheiro e viu que não via nada no lugar da sua face, só um vazio de manequim. Imediatamente ficou revoltado com aquilo, imaginando que bandidos haviam entrado na sua casa sorrateiramente e roubaram, sem a menor honra, seu rosto. Gritando de raiva, pensou em ligar para a polícia, mas quando pegou o aparelho de telefone percebeu um papel com um carimbo do governo federal. Era uma ordem de apreensão. Dizia que seu rosto havia sido recolhido por causa de várias irregularidades que constavam no sistema, todas elas listadas num linguajar incompreensível que falava de leis, códigos, números e atos, entre outras coisas do jargão jurídico. Junto com a ordem estava uma intimação para ver um juiz e dar seu depoimento naquela mesma manhã. Acalmou-se, vestiu seu melhor terno, e, despedindo-se da sua família que o olhava sem grande espanto, resolveu que iria solucionar seu problema naquele mesmo dia com o juiz.

Confiante, nem se lembrou de chamar seu advogado. Chegou sozinho ao fórum e mostrou a intimação à recepcionista, que, como se retirasse sofrivelmente das suas estranhas a força para parecer prestativa, indicou metodicamente a sala na qual ele esperaria até ser chamado para falar com o meretíssimo. Lá ficou por horas até ser chamado, suando na pequena e sufocante sala. Quando entrou na sala do juiz, estava todo desgrenhado, havia tirado o paletó e tinha manchas de suor enormes debaixo do braço. O juiz, ao vê-lo naquele estado, o suor descendo livremente por onde antes era seu rosto, olhou-o com repugnância e foi logo fazendo uma série de perguntas, tais como, onde o senhor estava na noite de 15 de outubro, quanto ganha por ano, para que time de futebol o senhor torce, com quantas mulheres ou homens o senhor já teve relações sexuais durante sua vida, em quem o senhor votou nas últimas eleições, e mais uma centena de indagações que pareciam não ter nenhuma ligação com o desaparecimento do seu rosto. Desaparecimento não, corrigiu o juiz ao ser indagado, recolhimento, e estas questões estão totalmente ligadas ao seu caso, portanto não se atreva a respondê-las falsamente, e massacrou o homem com mais uma série de perguntas que durou uma pequena eternidade. Quando o inquérito finalmente cessou, e ele, exausto, pensou que teria seu rosto de volta, o juiz mandou que ele aguardasse o contato do fórum que indicaria o andamento do seu caso. E com um aceno de mão apressado, expulsou-o de sua sala.

No outro dia o homem procurou seu advogado, perguntando o que poderia ser feito. Este, após ouvir seu cliente e requisitar no fórum todos os arquivos disponíveis do processo, explicou ao homem, em advoguês, que nada poderia ser feito além de fazer um requerimento e esperar o andamento do caso. O homem não se contentou com a resposta e procurou um advogado mais conceituado e mais caro, que apenas lhe disse as mesmas coisas de uma forma ainda mais complicada. Sem saber mais o que fazer, o homem decidiu retornar à sua rotina e esperar que o mundo burocrático desse suas voltas.

Mas levar a rotina sem o seu rosto acabou se revelando terrivelmente angustiante para o homem, que se sentia como se estivesse nu. A solução para este problema ele encontrou quando passava, acidentalmente, em frente a uma loja de artigos cenográficos e teatrais, e viu, expostas na vitrine, muitas máscaras de variados tipos. Imediatamente entrou e comprou uma máscara de um homem respeitável, cabelos penteados, barba feita, olhar de seriedade, que lembrava bastante a expressão rotineira do seu próprio rosto. Quando colocou a máscara, esta se grudou ao que antes era o seu rosto, tornando-se uma face perfeita e impossível de ser identificada como uma face artificial. Olhou-se no espelho e percebeu, satisfeito, que embora a máscara representasse o rosto de um outro homem, era perfeitamente possível reconhecer sua própria identidade; assim, ninguém o confundiria com outra pessoa nem deixaria de identificá-lo caso o conhecesse.

Viveu desse jeito por muito tempo. Mas com o passar dos dias, começou a se sentir vazio, e percebeu que algo lhe faltava em alguma região do corpo ou da alma. Descobriu que era seu rosto antigo, pois mesmo satisfeito com o novo, ainda sentia dentro de si que aquele que via no espelho não era realmente ele. Enjoado da nova face, decidiu passar novamente na loja de máscaras e comprar uma nova, desta vez de um homem mais jovial e alegre, que lhe deu uma nova alegria no coração assim que substituiu a face antiga. Sentia-se muito bem, queria viajar, conhecer coisas novas, cantar na rua sem vergonha de parecer ridículo, escrever um livro de poemas. Queria viver.

Mas novamente, conforme foi passando o tempo, foi enjoando no novo rosto, e teve de trocá-lo mais uma vez. E isso foi se repetindo por vários anos, até que se tornou velho e já não sabia mais quem era.

Muito tempo e muitas máscaras depois (agora ele estava usando a máscara de um dog alemão, amargo e velho), ele teve de passar num cartório para dar entrada nuns papéis do seu seguro de vida, quando o funcionário que o atendia encontrou num envelope amarelado que estava nos fundos dos arquivos, o seu velho rosto. O funcionário do cartório mostrou o envelope para o homem, que ao abri-lo, encontrou um documento, datado de muitos anos anteriormente, dizendo que o rosto estava livre de acusações e suspeitas e por isso deveria ser entregue ao dono, com as devidas condolências. O homem, emocionado, perguntou porque nunca havia recebido o seu rosto de volta e o funcionário respondeu que provavelmente havia ocorrido um erro humano e burocrático, levando o rosto a ficar esquecido nos arquivos do cartório.

O homem não ficou irritado nem revoltado; apenas retirou, num gesto cansado, seu antigo rosto do envelope e deitou sobre ele um olhar misto de saudade e esquecimento. O rosto, provavelmente por causa dos anos que passara perdido dentro de um envelope em um arquivo velho, sujo e mofado, estava todo amassado, com algumas manchas aqui e outros rasgões ali. O homem, entretanto, tirou a máscara de cachorro e vestiu seu antigo rosto, mesmo estando ele deformado pelo abandono. Em seguida voltou pra casa e nunca mais falou sobre esse assunto até o dia da sua morte.



10 comentários:

poli disse...

perfect [2]

Dandara disse...

(por isso que cada vez mais existem pessoas com machucados mais profundos, daqueles incuráveis)

às vezes acho que perdi meu rosto por aí, ou ele foi recolhido, e me deram esse, talvez por pena, amassado, só pra passar o tempo.

Alysson-Syn disse...

Lusca, esta é, sem dúvida alguma, a melhor metáfora que eu já li em toda minha vida. Tá perfeito, parabéns!

Há muitos homens e mulheres sem rosto. Há muitas pessoas que trocam, voluntariamente, os rostos por máscaras animadas, sérias, tristes, insanas. Há varias pessoas cujos rostos foram arrancados e substituídos por máscaras completamente diferentes, mas elas sequer perceberam a diferença. E o pior: agora nós somos nossos próprios rostos ou apenas máscaras que usamos pra nos sentirmos satisfeitos temporariamente?

Parabéns de novo, porque dessa vez você se superou totalmente (o que não é nada fácil)!!!

João disse...

Desses rostos q se deformam pelo tempo q lhes penetram a pele. E bom seria se fosse só por isso.
E eu aqui, sem rosto...

Rebeca disse...

Não dá para parar de ler...

Lucas Conrado disse...

É um dos textos mais inteligentes que eu já li!
A falta de identidade, a busca por novas, a burocracia jurídica... Apesar de ser uma história irreal, não deixa de ter uma certa realidade!

Está de parabéns!

Ianah Maia disse...

Muito bom! Tu escreve muito bem... a leitura flui!
Me lembrou um pouco o estilo de Douglas Adams. já lesse ele?

Natália Corrêa disse...

Tantas vezes procuramos em outros rostos um rosto pra nós, nos adaptando a estilos de vida que não são nossos. Mas uma hora a gente cansa de ser como os outros são, e queremos apenas o nosso velho rosto de volta.

Djaysel Pessoa disse...

agora ele estava usando a máscara de um dog alemão, amargo e velho... huahuahuahuahau

De fato esse rosto perdido permeia tantas condições humanas que fica complicado exemplifica-las. No entanto o velho rosto corroído pelo mofo e tempo ainda permanecerá como a melhor escolha. Advém disso uma grande questão... a de que até que ponto esse sistema, essa manivela social e política conduz o indivíduo a ter capacidade de se considerar indivíduo pensante e livre???

O meio é árido quase sempre mas essa busca do personagem em não aceitar a falta de rosto demonstra que por menos força que demonstre ainda assim luta pelo que é de direito. Certo de que nem sempre a melhor batalha é travada, e que nem sempre somos nobres pelo que aceitamos, principalmente como ele aceita, e engolimos muitas vezes no seco. Vale ainda o esforço desse pensar para não cairmos nessas teias do tempo e das engrenagens...

Rerlyn Le Fay disse...

Drasticamente tocante...
Um tapa!