quinta-feira, 18 de junho de 2009

Um buraco no muro



Você me dizia que dinheiro era o que pagava tudo o que valia a pena ser pago, e eu tentava imaginar se o que não valia a pena não podia – devia – ser pago de nenhuma outra forma; provavelmente não, você diria, mas eu não quis cair nesse seu materialismo que me irritava tanto. Ouvir de novo poetas não sonham com o que se deve era me espancar com uma lógica que cortava como sal demais nos lábios.

A verdade é que o mundo acaba cercando você, como um muro, com todas essas importâncias que não fazem sentindo quando se quer uma coisa tão simples que é viver. Digo viver, não sobreviver, não subviver, não paraviver, não, nada disso que te empurram como se fosse essa a única opção possível – e a mais certa, meu Deus, a mais certa! E cada importância dessas sobe em cima da outra, juntam-se, combinam-se, dançam essa dança hipnótica de sedução, até que caem por cima de você com aquele desejo que te parece paixão, mas uma paixão pública – não aquela que você guarda debaixo do travesseiro e só revela acidentalmente quando os lençóis estão espalhados e úmidos, não, - mas uma paixão social, que faz com que seus pais sintam orgulho de você, e te olhem como se você finalmente tivesse colocado um pé para caminhar o bom caminho.

Esta vida, nestes moldes, é uma praga, é uma espécie de vírus que se corrói a si mesmo; e ao se corroer se espalha para os lados, causando uma febre de delírios quentes e felizes, corroendo cada vez mais até comer o que não sobra, o que fora presente e febril. Mas agora a vida passou, e em seu lugar ficou a mancha que contamina os outros, com suas mentiras e palavras grandiosas, com sua felicidade e sua doença quente.

Por isso eu pedia me mate, arranque minha cabeça fora com um facão, corte meus pulsos com vidros de janelas imundas, apunhale-me pelas costas numa rua esquecida, empurre-me de um precipício e espere enquanto meu sangue se esvai lentamente, escuro e denso, para certificar-se de que eu não terei nenhuma chance de voltar, de que minha vida derramou-se junto com meu sangue, também escura, também densa, também vermelha.

Mas você apenas me olhava sem nenhuma empatia, sem nenhuma inteligência, como se olha uma natureza morta em um quadro feio, ou em uma paisagem que passa rapidamente pela janela do ônibus. E não conseguia, ou não tentava, ou mesmo não queria – porque querer seria admitir pra si que nenhuma lógica, por mais brilhante e polida que seja, pode ser perfeita como dizem – entender o porquê de eu não querer ouvir falar no que o dinheiro pode comprar e no que eu posso sonhar ou não.

E é nestas passagens do tempo que eu percebo que a solidão é menos companhia do que um buraco no muro.

9 comentários:

César Fernández disse...

caralho, viajei.

Francisco disse...

E como o dinheiro tem importância na vida de certas pessoas.
O "ter" tem valido mais que o "ser", infelizmente.
Que belo desbafo contra o materialismo!
Um abração!

Cleyton disse...

Valeu, leio amanhã teu post. Me deixou falando sozinho no msn naquele dia... Abração.

poli disse...

"paraviver" - genail!

tudo que vc faz me faz amar você ainda mais, sabia?

quer dizer q a solidão é um fúiu, um buiácu na paiêde? ahuahuahau sim, eu concordo ^^

melhor é viver sem paredes, estar pronto para viver sem elas

Belle disse...

Meninooo, mto bom isso!!!!
De fato esse é um mundo capitalista, onde o querer, o consumir é mais forte q o próprio sentimento das pessoas por elas mesmas....
Adorei mesmo!!!
bjo

César Fernández disse...

nem, mas não rola analisar a chuva sob a luz da poética de aristóteles

Syn disse...

Bonito, mas também é triste e deixou uma sensação de vazio. Queria escrever assim! (*_*)

Abração Lusca!

Cleyton disse...

Que puta texto! Amei! (supermeidentifiquei)

Francisco disse...

Voltando aqui para dizer que vc tem razão em lembrar de Malba Tahan. Me inspirei no "Homem que Calculava", para escrever o post. rsrsrsrsrsrsrs
Um abração!